Era noite. Era frio. Era neve. Era véspera de Natal.
Mais um vez saí de casa em busca de algum consolo para a solidão desta data. O Natal já não me representava mais a união da família, mas sim, a saudade dela. Já se faziam quase três anos que passo essa data longe dos meus parentes... É, parece que a saudade te dá uma outra visão do que você tinha, valoriza e te diz: "Viu? Foi tudo isso que você perdeu, sua escolha te afastou disso." Mas não adiantava, eu não ia me culpar. Fiz isso para o meu próprio bem. Era meu futuro, minha carreira, minha vida. Como meu avô me dizia: "A oportunidade é cabeluda na frente, para você se agarrar a ela, e careca atrás, para você aprender a não deixá-la passar sem agarrá-la." E foi o que eu fiz. Não é sempre que se recebe a proposta de uma bolsa integral para estudar em Oxford, não é? Pois bem, com muita coragem e um dinheiro na conta bancária, na qual meus pais depositavam uma quantia 'X', vim estudar em Londres, onde tive que utilizar de pés-e-mãos para conseguir me estabelecer, tudo isso estando só. Seria fácil para quem já tinha o costume, mas sempre tive alguém ao meu lado quando ia enfrentar algum problema. Ah, mamãe...
Mas como vinha dizendo, saí de casa e estava andando pela calçada, admirando algumas vitrines de lojas fechadas mais cedo que o de costume, por causa do feriado. Tomava muito cuidado para não escorregar, o chão estava coberto por uma fina, mas traiçoeira, camada de gelo. Enquanto vagava entre meus devaneios, vitrines e calçadas escorregadias, não vejo que vem alguém em minha direção. Não a vejo e acabamos nos esbarrando. Voam sacolas para um lado e meu minucioso cuidado para o outro. Caímos com uma exclamação silenciosa e um baque surdo, abafado pelas roupas felpudas e o barulho das sacolas.
-- Opa! Que trombada! Ah! Moça, você está bem?
-- Ai. Sim, sim. Estou. Er, me desculpe, eu não te vi.
-- Hahaha! Nossa, pra não ver uma coisa do meu tamanho tem que estar com algum problema de vista! Quer ajuda?
-- Ah, obrigada. Er, talvez eu tenha problema de vista, mas é que eu não estava prestando atenção no caminho. Aliás, me desculpe.
-- Não, não. Tudo bem. Sem problemas. Mas você está bem?
-- É, acho que estou. Tomei tanto cuidado pra não cair e acabei caindo por não prestar atenção no caminho. Que irônico!
-- Haha. Acontece. Eu também. Tem certeza que não se machucou? Sua mão, está sangrando!
-- Ahn, não, tudo bem, é só um cortezinho. Já já estanca.
-- 'Tá bem então. Se diz. Mas sim! Minha educação! Sou Ian.
-- Prazer, meu nome é Sarah.
-- Encantado em conhecê-la, senhorita cega. Quer ajuda para atravessar a rua? -- rindo.
-- Não seria você que precisa de ajuda? -- pegando as sacolas.
-- Ah, tinha esquecido das sacolas. Hahaha. Acho que fui contagiado pela sua distração! Ah, obrigado Sarah. Enfim, o que faz uma moça tão educada faz fora de casa em véspera de Natal? Não devia estar comemorando com a sua família?
-- Hãn? Bem, pergunto o mesmo à você. Não devia estar com sua família?
-- Bom, é que não posso estar com ela. E... Ei, esta sacola é sua moça. Ia me dar de brinde por ter te ajudado é?
-- Ah, não. Quer dizer, é pra família. Vou mandar pelo correio.
-- Mesmo? Eu também vou. Você também acha que é um pedido de desculpas por não estar presente?
-- Hum, pensando bem, é, acho sim. Ai, acho que estou tonta. Podemos sentar naquele banco, do outro lado da rua? Mas estou bem, só um pouco zonza.
-- 'Tá ok, então. Bem, também veio estudar aqui, não é? Também ficou só e teve de se virar como pode, estou certo? É, acontece isso com todos que vêm pra cá. Seja pra estudar ou trabalhar... Brrr! Frio não? Quer o casaco? -- estendendo o casaco.
-- Ah, não precisava se incomodar. Mas enfim, além de ter descorberto meu passado, ó mago, também tem se sentido só, e que essa solidão, junto com este frio, vem te consumindo cada vez mais? Ai, ai. Tudo por uma boa carreira e, se Deus quiser, um futuro promissor e uma vida estável. Sabe Ian, às vezes, quando a solidão decide atacar com uma crise, você quer voltar pro seu lar, abraçar uma pessoa querida. Mas a razão não te deixa fazer isso porquê, afinal, não é o certo, não é mesmo?
-- É... Nossa, nunca pensei em me abrir assim pra uma estranha! Hahaha. Mas fazer o que? Quando encontramos alguém que sabe o que passamos, a gente se identifica e se sente em casa.
-- Hehehe. Então somos dois na mesma barca. Só me resta dizer então, que nós dois estamos em casa.
-- Nesse banco frio? No meio da praça? Hahahahaha. Só me resta dizer que nossa condição financeira é terrível! Mas se é o que temos, e se meu lar for tão feliz e agradável como este momento... Só me resta dizer que é esse lar que quero ter. E enfim, consegui arranjar um lar em plena véspera de natal. Que sorte a minha não?
-- Que sorte a nossa! Sem um de nós, não poderíamos ter encontrado a nossa casa. Será que o Espírito do Natal nos deu esse presente?
-- Pode ter sido o própio Papai Noel! Hahaha. Então isso quer dizer que nos comportamos bem esse ano, não é mesmo, senhorita Sarah?
-- Hehe. É mesmo, senhor Ian. Enfim, isso quer dizer que esta é uma feliz véspera de Natal, concorda?
-- Sim, uma Feliz Véspera de Natal para nós dois.
-- Sim, para nós dois.
E o silêncio, junto com a fina cortina de neve e o frio do inverno, dão o ponta pé inicial para o encerramento dessa véspera de Natal. Encontramos um lar. E o tempo nos é favorável para celebrarmos esta data, matando nossa solidão, nossa falta de carinho e a nossa sede atenção. É, uma Feliz Véspera de Natal para todos.